mais uma besteirinha para brincar em feriado

Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo
Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.

Cortazar, via Janine.

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O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto - Os Três Mal-Amados

Notes

Como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas e por fábricas de papel e de tinta, os escribas de dia e as máquinas de noite para imprimir o trabalho dos escribas. Primeiro, as bibliotecas transbordarão para fora das casas; então, as prefeituras resolvem (já estamos vendo tudo) sacrificar as áreas de recreação infantil para ampliar as bibliotecas. Depois sucumbem os teatros, as maternidades, os matadouros, as cantinas, os hospitais. Os pobres aproveitam os livros com tijolos, grudam-nos com cimento e constroem paredes de livros e moram em casebres de livros. Então acontece que os livros transbordam das cidades e entram nos campos, vão esmagando os trigais e os campos de girassóis, o Ministério da Viação mal consegue que os caminhos fiquem desimpedidos entre duas paredes altíssimas de livros. Às vezes uma parede cede e há espantosas catástrofes automobilísticas. Os escribas trabalham sem trégua porque a humanidade respeita as vocações e os impressos já chegam à beira do mar. O presidente da república telefona para os presidentes das repúblicas e propõe inteligentemente jogar no mar o excedente de livros, o que se faz ao mesmo tempo em todas as costas do mundo. Assim os escribas siberianos vêem seus impressos jogados no oceano glacial e os escribas indonésios, etc. Isso permite aos escribas aumentarem sua produção, porque volta a haver espaço na terra para armazenar livros. Não pensam que o mar tem fundo, e que no fundo do mar começam a amontoar-se os impressos, primeiro em forma de pasta aglutinante, depois em forma de pasta consolidante, e finalmente como um chão resistente embora viscoso, que sobe diariamente alguns metros e acabará por chegar à superfície. Então, muitas águas invadem muitas terras, produz-se uma nova distribuição de continentes e oceanos, e presidentes de diversas repúblicas são substituídos por lagos e penínsulas, presidentes de outras repúblicas vêem abrir-se imensos territórios a suas ambições, etc. A água do mar, tão violentamente obrigada a espalhar-se, evapora-se mais do que antes, ou procura repouso misturando-se aos impressos para formar a pasta aglutinante, a tal ponto que um dia os capitães-de-longo-curso percebem que seus navios avançam lentamente, de trinta nós descem para vinte, para quinze, e os motores arquejam e as hélices se deformam. Afinal, todos os navios param em diferentes pontos dos mares, encalhados na pasta, e os escribas do mundo inteiro escrevem milhares de impressos explicando o fenômeno, cheios de uma grande alegria. Os presidentes e os capitães resolvem transformar os navios em ilhas e cassinos, o público vai a pé, por cima dos mares de papelão, para as ilhas e os cassinos onde orquestras de música típica argentina e de música local amenizam o ambiente refrigerado e se dança até altas horas da madrugada. Novos impressos se amontoam à beira do mar, mas é impossível metê-los na pasta, e assim crescem muralhas de impressos e nascem montanhas à beira dos antigos mares. Os escribas percebem que as fábricas de papel e de tinta vão falir e escrevem com uma letra cada vez menor, aproveitando até os cantos mais imperceptíveis de cada papel. Quando a tinta acaba, escrevem a lápis, etc.; ao acabar o papel, escrevem em tábuas e ladrilhos, etc. Começa a difundir-se o hábito de intercalar um texto em outro para aproveitar as entrelinhas, ou se apagam com lâminas de barbear as letras impressas, para utilizar novamente o papel. Os escribas trabalham devagar, mas são em tal quantidade que os impressos já estabelecem uma nítida separação entre as terras e os leitos dos antigos mares. Na terra vive precariamente a raça dos escribas, condenada a extinguir-se, e no mar estão as ilhas e os cassinos, isto é, os transatlânticos onde se refugiaram os presidentes das repúblicas, e onde se celebram grandes festas e se trocam mensagens de ilha a ilha, de presidente a presidente, e de capitão a capitão.

Um dia a menos » Fim do mundo do fim

Notes

Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria
rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe
me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do fosse uma
rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava
do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu
irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera
ao meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens
do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore
do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore
de flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava
piraputanga.
Era verdade , mas o que nos unia demais eram
os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!

Deslimites do Ser: O menino que ganhou um rio

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Se eu tivesse morrido aos 63 anos antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora

G1 - Documentário inédito conta história de amor entre Saramago e esposa - notícias em Pop & Arte

Notes

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Pensar, pensar « Outros Cadernos de Saramago

Notes

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.

Minutos, dias « Outros Cadernos de Saramago

Notes

Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direcção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes.

Momentos « Outros Cadernos de Saramago

Notes

Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.

O único céu « Outros Cadernos de Saramago

Notes

“Cada vez que você ia à biblioteca”, dizia o livro, “o Criador do Universo prendia a respiração. Com aquele imenso e confuso banquete cultural diante de si, o que você, com o seu livre-arbítrio, escolheria?”

“Seus pais eram máquinas de brigar e máquinas de autocomiseração”, dizia o livro. “Sua mãe foi programada para vociferar contra o seu pai por ele ser uma máquina defeituosa de fazer dinheiro, e seu pai foi programado para vociferar contra a sua mãe por ela ser uma máquina de cuidar de casa defeituosa. Os dois foram programados para vociferarem um contra o outro por serem máquinas de amar defeituosas.

“Então seu pai foi programado para sair de casa batendo a porta. Isso automaticamente fazia da sua mãe uma máquina de chorar. E seu pai ia para um bar, onde ficava bêbado com algumas outras máquinas de beber. E então todas as máquinas de beber iam para um puteiro onde alugavam máquinas de foder. E então seu pai se arrastava de volta para casa para se tornar uma máquina de pedir desculpas. E a sua mãe se tornava uma máquina muito lenta de perdoar.”

Café-da-manhã dos campeões, Kurt Vonnegut

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Patty Keene era burra de propósito, o que era o caso da maioria das mulheres da cidade de Midland. Todas as mulheres tinham mentes grandes, porque eram animais grandes, mas não as usavam muito, pelo seguinte motivo: ideias diferentes podiam fazer inimigos, e as mulheres, se quisessem conquistar qualquer tipo de conforto e segurança, precisavam da maior quantidade de amigos possível.

Assim, no interesse da sobrevivência, treinaram a si próprias para serem máquinas de concordância em vez de máquinas de pensamento. Tudo o que as suas mentes tinham de fazer era descobrir o que as outras pessoas estavam pensando, então pensavam a mesma coisa também.

Café-da-manhã dos campeões, Kurt Vonnegut

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Trout recostou-se e ficou pensando na conversa. Pensou nela como um conto, que só chegou a escrever quando estava muito, muito velho. Era sobre um planeta onde a língua se transformava em pura música, porque as criaturas de lá ficavam tão encantadas com os sons. As palavras se tornavam notas musicais. Frases viravam melodias. Eram inúteis para comunicar informações, porque ninguém sabia nem se importava mais com o significado das palavras.

Assim, líderes comercias e do governo, para agir, precisavam inventar o tempo todo novos vocabulários e estruturas frasais muito mais feios, que resistissem à transmutação em música.

Café-da-manhã dos campeões, Kurt Vonnegut

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Quanto ao conto em si, era intitulado “O idiota dançarino”. Assim como muitas histórias de Trout, era sobre um trágico fracasso de comunicação.

Este era o enredo: uma criatura de disco voador chamada Zog chegou à Terra para explicar como as guerras podiam ser prevenidas e como o câncer podia ser curado. Ele trouxe as informações de Margo, um planeta em que os nativos conversavam por peidos e sapateado.

Zog pousou à noite em Connecticut. Mal havia tocado o chão quando viu uma casa em chamas. Correu para dentro da casa, peidando e sapateando, alertando as pessoas sobre o terrível perigo em que se encontravam. O chefe da família matou Zog atingindo-o com um taco de golfe na cabeça.

Café-da-manhã dos campeões, Kurt Vonnegut

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Quando você fica bêbado, não há diferença entre você e um bando de publicitários bêbados.

Sherwood Anderson, o sujeito que morreu depois de engolir um palito.

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Geneton Moraes Neto » Blog Archive » “O proletário é o sujeito explorado financeiramente pelo patrões e literariamente pelos poetas engajados”.Palavra de Mário Quintana

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