um homem com uma dor é muito mais elegante caminha assim de lado como se chegasse atrasado andasse mais adiante carrega o peso da dor como se portasse medalhas uma coroa um milhão de dólares ou coisa que os valha ópios édens analgésicos não me toquem nessa dor ela é tudo que me sobra sofrer, vai ser minha última obra
Paulo Leminski: Um homem com uma dor um homem com uma do…
Nunca imaginei que seria possível fazer um rockão até bom com uma das poesias mais macabras de Poe.
Annabel Lee - Fiddler’s Green (1991!) (via punkrockzentrale)
A tarde de inverno declina
Com ranço de bifes nas galerias.
Seis horas.
O fim carbonizado de nevoentos dias.
E agora um convulso aguaceiro enrola
Os restos encardidos
De folhas secas ao redor de nossos pés
E jornais que circulam no vazio
Dos terrenos baldios.
O temporal chicoteia
As persianas rachadas e o capuz das chaminés.
E na esquina de uma rua
Um solitário cavalo de coche
Bajefa e escarva o solo.
E então
As lâmpadas dardejam seu clarão.A manhã se apercebe
Dos miasmas de cerveja choca
Que impregnam as lajes pisoteadas
Da rua recoberta de serragem,
Imprimindo suas lamacentas pegadas
Até as matinais cantinas de café.
Em face de outros mil disfarces
Que o tempo reassume a cada passo,
Pode pensar-se em todas essas mãos
Que emergem como sombras embaçadas
Em milhares de quartos mobiliados.Sacudiste da cama um cobertor,
De costas te quedaste, e esperaste;
Cochilaste, e velaste a noite que revelava
Milhares de sórdidas imagens
De que era constelada a tua alma;
Elas bruxulearam contra o teto.
E quando todos regressaram
E a luz escorregou entre as venezianas
E ouviste o canto dos pardais nas calhas,
Tiveste uma tal visão da rua
Como sequer ela própria a entenderia;
Sentada à beira da cama, anelaste
Em teus cabelos caracóis e papelotes;
E estreitaste as pálidas plantas dos pés
Entre as palmas de ambas as mãos sujas.Sua alma se estendeu cruzando os céus
Prelúdios, T.S Eliot
Que se estiolam por detrás dos edifícios,
Ou a pisotearam insistentes pés
Às quatro e às cinco e às seis horas da tarde;
E curtos dedos firmes a encher cachimbos,
E jornais vespertinos, e olhos
Convictos de certas certezas,
A consciência de uma rua enegrecida
Impaciente por se apoderar do mundo.
Sou movido por fantasias que se enredam
Ao redor dessas imagens, e a elas se agarram:
A noção de algo infinitamente suave
De alguma coisa que infinitamente sofre.
Enxuga tuas mãos à boca, e ri;
Os mundos se contorcem como velhas mulheres
A juntar lenha nos terrenos baldios.
Franzida e obscura como um ilhós Violeta, Ela respira, humilde, entre a relva Rociada Ainda do amor que desce a branda Rampa das Brancas nádegas até o coração da Greta. Filamentos iguais a lágrimas de leite Choraram sob o vento atroz que os Arrecada E os impele através de marnas Arruivadas Até perderem-se na fenda dos Deleites.
Arthur Rimbaud - © Arnaldo Poesia
Doce toada
Henrique Silvestre, que anda em dúvida se a poesia tá boa ou não.
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O grilo
Os sapos
A fogo-pagou
O vento que assoviava na copa das árvores
A água turva que estrondava nos dias de cheia
Os trovões. Ah! Os trovões
Ecoavam nos sovacos de serra
E congelavam de medo a alma tenra
A chuva batia no telhado e embalava o sono ingênuo
As cigarras autenticavam as tardes de estio
Os gaviões e seus pios de metal
Punham o galinheiro em polvorosa
Ao longe, a acauã agourava
De noite, a rasga-mortalha e os piores presságios
O zunzum dos enxames botava os meninos de cócoras
Chocalhos, mugidos, relinchos, balidos
Poucos ouvidos engolem hoje aboios como
Os daquele tempo. Os vaqueiros apearam
A morte no grito dos porcos. O baque mudo na nuca das ovelhas
O ranger das cancelas, como a alma das gentes
Seco. Depois a pancada do jirau. Madeira na madeira
Dos engenhos vinham sons doces
Como o das moendas a triturar a cana
E da garapa a borbulhar nas gamelas
Mas também o estalar da palha seca ao fogo
Que não respeitava propriedade e tudo destruía
Os burros passavam com cargas de olhos-de-cana a varrer o chão num chiado longo e ritmado
Benditos, novenas, matracas,
Sinos a anunciar mortos e vivos
À tardinha, lábios sibilavam
A debulhar rosários sem-fim
Pau, corda, pífanos
Reisados com seus sons coloridos
Patativa
E o cair da noite profunda
Com seus silêncios
E sua melopéia
nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além / de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio: / no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram, / ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto / […] / nada que eu possa perceber neste universo iguala / o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura / compele-me com a cor de seus continentes, / restituindo a morte e o sempre cada vez que respira / […] / (não sei dizer o que há em ti que fecha / e abre; só uma parte de mim compreende que a / voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
e.e. cummings em tradução de augusto de campos
